Não tenho culpa que a vida seja como ela é…

Vou compartilhar uma paixão aqui com vocês: Nelson Rodrigues. Conheci melhor as obras dele por meio de uma vendedora que trabalhava comigo na Cultura e vivia falando que as peças dele eram sensacionais.

Já tinha lido uma para o colégio (“O beijo no asfalto”), mas acho que na época eu não tinha maturidade para entender o que ele queria dizer.

Tentei dar uma nova chance para Nelson Rodrigues e comecei lendo “Vestido de noiva” (a minha peça favorita até hoje!) e fiquei apaixonada. Hoje, ele é o meu autor brasileiro favorito.

Bom, Nelson Rodrigues nasceu aqui no Recife, mas passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro. Ele era jornalista, dramaturgo e escritor (recifense e jornalista, eu só podia amar mesmo :P). O primeiro jornal que ele trabalhou foi o A Manhã (que era de seu pai).

Foi repórter policial durante longos anos, de onde acumulou experiência para escrever suas peças sobre a sociedade (mais uma coincidência: começamos pelo jornalismo policial).

A carreira dele como dramaturgo foi marcada pelo sucesso de “Vestido de noiva”, que mudou a forma de fazer teatro no Brasil.

Vou falar um pouquinho mais do último livro dele que li: “Não tenho culpa que a vida seja como ela é” (Contos inéditos de “A vida como ela é”). Bom, acho que o primeiro capítulo do livro explica bastante a obra. Vou copiá-lo por inteiro aqui (vale muito a pena ler!).

Minha mãe detestava Nelson Rodrigues (achava ele pornográfico, sanguinário), mas passou a admirá-lo aos extremos depois de ler este primeiro capítulo do livro:

Capítulo 1 – Não tenho culpa que a vida seja como ela é

Há cerca de um ano Samuel Wainer chamou-me: “Senta aí”, disse-me.  Sentei-me. Ele apanhou um cigarro e o acendeu. Antes, afrouxara o colarinho e o nó da gravata. E fez a pergunta:

– Queres fazer uma seção assim, assim?

– Como?

E ele:

– Presta atenção: o negócio é o seguinte.

Comigo já animado, planeja, ainda sem título, “A vida como ela é…” Vou ouvindo e tomando notas mentais. Há muito tempo, ele sonhava com uma seção policial, de dar ao fato policial uma categoria, digamos assim, poética, dramática.

Um atropelamento deixava de ser apenas um acidente de tráfego. Passaria a ser uma tragédia, com seu clima específico, o seu grande sopro. Outra hipótese: um suicídio ou um assassinato ou um adultério. Alguém, que seria eu, daria ao fato um novo tratamento. Em vez da fixação rotineira, da reportagem meramente objetiva e convencional – uma penetração mais profunda e uma visão mais poética que jornalística.

Em 15 minutos de conversa, deixei-me tocar pelo que a ideia de Samuel tinha de persuasiva, de irresistível. Ele perguntou:

– Você faz um negócio assim?

-Faço.

O poeta dramático

Assim se resolveu, na redação do ‘Última Hora’, a criação de “A vida como ela é…” que veio colocar, pela primeira vez, na reportagem policial, um poeta dramático. Pena que esse poeta dramático fosse, entre tantos mais imaginosos e brilhantes, eu, precisamente eu. Fora esta restrição, de ordem pessoal, considero uma coluna como “A vida como ela é…” imprescindível num jornal. E passo a explicar por quê.

O fato de polícia, seja qual for, representa o grande manancial poético de cada dia. Seja homicídio, cabeça quebrada, atropelamento, adultério, agressão, facada, tiro – não importa. A verdade é que do homicídio ao furto da galinha – a crônica policial tem suas raízes nas grandes paixões humanas, nos problemas eternos do homem.

Quando o repórter apura a ‘Tragédia em Copacabana” – está diante de uma Anna Kariênina. E, então, pergunto: por que ignorar a aura trágica que marca a pecadora da vida real e carioca? Por que negar o valor dramático de um simples atropelamento?

Para o jornal, alguns dos maiores dramas do coração humano se resolveriam assim: “Por motivos ignorados, pôs termo aos seus dias, Anna Kariênina, branca, casada, de tantos anos, residente etc, etc.”

Quanto a Emma Bovary, teria “ingerido” violento tóxico, sendo o cadáver remetido para o Instituto Médico Legal, etc, etc.

Eis por que um dos objetivos desta seção foi de preservar, tanto quanto possível o nível lírico e dramático de cada acontecimento; de fazer sentir a fatalidade superior e apavorante que existe mesmo nas simples tombadas de automóveis.

Nome e residência

Continuamos, ainda, com a gênese de “A vida como ela é…” Idealizada a seção, restava criar a sua técnica. De início, resolvi dispensar o “fato do dia”. A força de um acontecimento está, não no mês, dia e hora, mas na sua substância trágica. O episódio de ontem, de hoje, de amanhã comove da mesma maneira. Ele depende de “atualidade”. Assim, “A vida como ela é…” não discrimina os fatos atuais dos outros. Muitas vezes, vou buscar uma história que ocorreu no Rio, mas há trinta anos.

Outra característica da seção: suprimir os verdadeiros nomes e residências dos personagens. Meus personagens têm sempre um domicílio vago ou não têm nenhum. Posso admitir a indicação sumária do bairro; de rua, nunca. O que me importa são os atos e, mais que os atos, os sentimentos.

Com a eliminação do endereço e nomes reais, a seção atinge, em cheio, um resultado, qual seja o de atenuar a vergonha dos personagens. Ninguém os identificará debaixo do disfarce criado. Só não altero nem falsifico suas palavras e seus crimes.

Coluna triste

Enfim, estabelecidos os critérios de “A vida como ela é…”, ela iniciou o seu destino no ‘Última Hora’. Desde o primeiro momento, apresentou uma característica quase invariável: era uma coluna triste. Impossível qualquer disfarce, qualquer sofisma. Por uma tendência fatal, irresistível, só tratava de paixões, crimes, velórios e adultérios.

Criou-se uma dupla situação: sofriam os personagens e os leitores. A princípio, ninguém disse nada. Um mês depois, porém, começaram as reclamações. Os próprios companheiros me chamavam, repetiam:

– Que diabo! Vê se dá um final menos trágico a teu negócio! Todo dia você mata um!

Eu procurava ser jocoso: “Vou tratar disso.” Sempre que estava escrevendo, na redação, havia quem perguntasse:

– Muita morte hoje?

– Mais ou menos.

Um dia, o telefone bateu. Voz de mulher, perguntando por mim. Atendo e, do outro lado da linha, vem a pergunta:

– É o senhor que escreve aquela seção “A vida como ela é…”?

– Perfeitamente.

Continuou a voz:

– Aqui fala uma leitora. Me diz uma coisa: o senhor é inimigo das mulheres?

Caio, automaticamente, das nuvens:

– Eu, minha senhora?! Pelo amor de Deus!…

A leitora, porém, insiste:

– Então, como é que, nas suas histórias, as mulheres fazem o diabo? Hein?

Estava criado o drama. Na maior das confusões, na mais dolorosa das perplexidades, tentei explicar o equívoco. Lembro-me de que um de meus argumentos foi este: não tenho nada com os fatos, que os fatos ocorrem à minha inteira revelia.

Por fim, disse que só me responsabilizava pelos meus próprios pecados e que nada tinha a ver com os pecados alheios. A pessoa desligou e, se não me engano, pouco convencida. A partir de então, as observações não pararam mais. Todos acham “A vida como ela é…” triste. Sugerem: “Escreve umas coisas mais alegre!” Explico, em vão, que a minha coluna é assim mesmo, triste por natureza, triste por destino.

Drama

Senão vejamos. “A vida como ela é…” tem suas raízes onde? Nos fatos policiais. É, por sua vez, uma seção de polícia, embora com características próprias. Muito bem. A matéria-prima que necessariamente uso são, e aqui faço dois pontos: punhalada, tiro, atropelamento, adultério, etc, etc.

Interpelo o leitor: posso fazer de uma punhalada, de um tiro, de uma morte um episódio de alta comicidade? Devo fazer rir com o enterro das vítimas? Posso transformar em chanchada as tragédias cariocas? Parece a mim que não.

Um noivo me faz parar no meio da rua; e diz:

– Seu Nelson, não deixo a minha noiva ler a sua seção.

Delicadamente, pergunto por quê. Ele explica: porque as minhas personagens femininas dão mau exemplo. Eu não entro em discussões, mas fico pensando. Discordo desse ideal de noiva cega, surda e muda diante da vida. Uma moça só deve ser esposa quando está em condições de resistir aos maus exemplos. Considero mostruosa a virtude que se baseia, pura e simplesmente, na ignorância do mal. Cada mulher deveria ter um conhecimento teórico, minucioso, do bem e do mal. Chamo virtude a opção consciente e voluntária pelo bem.

O sofrimento

“A vida como ela é…” se tornou justamente útil pela sua tristeza, imensa e vital. Uma pessoa que só tem uma visão unilateral e rósea, que ignora a face negra da vida, é uma pessoa mutilada.

Por outro lado, nego a qualquer um o direito de virar as costas à dor alheia. Precisamos ter, continuamente, a consciência, o sentimento dessa dor. Eu sei que nenhum de nós gosta de se aborrecer. Mais importante, porém, que o nosso conforto, o nosso egoísmo, a nossa frivolidade – é o dever de participar da desgraça dos outros.

E houve, ainda, um episódio que marcou ainda mais a minha coluna. Dias antes de ser iniciada a publicação de “A vida como ela é…” estive, acidentalmente, numa Policlínica. Lá, numa sala apinhada, esperando a vez, estava um menino de 3 ou 4 anos, no colo materno.

E, súbito, a criança começa a chorar. Mas seu pranto é diferente: ele chorava pus! Viva eu trezentos anos e terei cravada em mim essa lágrima espantosa do menino. Durante meses, tive vergonha de mim, da minha pouquíssima alegria, da minha problemática felicidade e, mais do que isso, vergonha de minhas lágrimas normais e apresentáveis.

E, como se não bastasse a vida mesma, tão triste e tão feia, restaria ainda, para amargurar esta coluna, minha condição teatral. Bem ou mal, sou dramaturgo. E, para mim, o teatro se reduz ao gênero trágico. Acho a peça para rir tão absurda e falsa como o seria uma missa cômica.

13/06/1952

Grifei as partes que mais gosto desse texto.

Nelson Rodrigues é mestre! Meus colegas jornalistas, certamente, entenderão melhor o que ele escreveu. Os que fazem polícia então…

Beijos pra vocês!

Aninha.

4 thoughts on “Não tenho culpa que a vida seja como ela é…

  1. Olá, muito boa sua crônica, parabéns… engraçado, pois também sou do Recife e encontrei o seu blog ao acaso, fazendo uma busca por esse livro do Nelson Rodrigues na internet.
    Sou muito fã dele também, fiz até uma crônica sobre os 100 anos do nascimento celebrado agora em agosto/12 (aqui o link, se tiver interesse):
    http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3493121
    Ah, li outra postagem sua (sobre a sorveteria Zepelim, na Praça de Casa Forte). Concordo com você, é excelente, costumo ir lá frequentemente, pois moro na Praça (bem pertinho).
    Abraço.
    Daniel

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